sexta-feira, 28 de abril de 2017

Cristãos desanimados...














         Quantos cristãos podem afirmar que nunca tiveram dias de desânimo? O jornalista Philip Yancey relata em um dos seus livros o que resolveu dizer para Deus quando enfrentava um tempo de crise espiritual:

Às vezes, te trato como uma substância, um narcótico como o álcool ou o Valium, quando preciso de uma dose a fim de abrandar a dureza da realidade ou acabar com ela. Outras vezes, fujo deste mundo caindo num mundo invisível imaginário; e na maior parte das vezes realmente creio que ele existe, tão real quanto este mundo de oxigênio, plantas e água. Mas como fazer o inverso e deixar que a realidade do teu mundo, ou tu, entre e transforme a mesmice entorpecedora de minha vida diária, do meu eu diário? [...] Às vezes, transporto-me para teu mundo e te amo. Também aprendi a conviver bem com este mundo. Mas como posso conciliar os dois mundos? Esta é minha oração, eu acho: crer na possibilidade de mudar. Vivendo voltado para mim mesmo, fica difícil divisar a mudança. Com muita frequência, parece que se trata de comportamento aprendido, de adaptações ao meio ambiente, como dizem os cientistas. O que devo fazer para te deixar mudar a minha essência, minha natureza, para que eu fique mais parecido contigo? Será que isso é mesmo possível?9

         John Donne afirmava que seus acessos de fé chegavam e evaporavam como uma tremenda febre. A ideia de doença me vem à mente sempre que penso nos meus desvios espirituais. Tal como uma enfermidade crônica, há momentos em que a melhora é considerável, e há momentos que a coisa piora novamente. Nunca existiu um dia em que consegui dizer que estava completamente são.

         Constantemente me pergunto se esse desconforto não é de alguma maneira providencial. Como pecador, tenho a necessidade diária de me voltar para Deus. E, de que maneira perceberia isso se não existisse um espinho a me incomodar? Talvez o poeta Donne experimentasse algo parecido, pois afirmou que se sentia melhor quando tremia de medo 10.







9 YANCEY, Philip. O Deus (In)visível, São Paulo: Vida, 2001, p. 16.
10 DONNE, John. Sonetos de Meditação, Rio de Janeiro: Philobiblion, 1985, p. 71.





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